"OS
SEUS NÃO O RECEBERAM"
Não há quem não conheça
esta proclamação da sabedoria popular: "Ninguém é profeta na sua
terra". Pois isso aconteceu com o próprio Jesus em relação à sua pequena
cidade de Nazaré na Galiléia. Quando a marcha do Evangelho já estava a caminho
e o nome de Jesus já se espalhava como o de um grande mestre e de um taumaturgo
que curava os enfermos e expulsava os demônios, o Divino Mestre se dirigiu a
Nazaré acompanhado por um grupo de seus discípulos, e entrou na sinagoga da
cidade. Aí ensinou, e numerosos ouvintes ficaram maravilhados. Mas era uma
admiração que tinha no fundo as sombras do despeito e do menosprezo. E
perguntavam em tom de escárnio: Onde é que ele foi aprender toda essa
sabedoria? Pois ele não é um aqui da nossa terra? Não conhecemos Maria sua mãe
e seus parentes? E fecharam o coração para Ele (cfr Mc 6, 1 -3). E Jesus não
pôde fazer aí nenhum milagre, a não ser curar uns poucos enfermos, impondo-lhes
as mãos. E comentou que nunca se encontra um profeta desonrado, a não ser na
sua própria terra, em sua casa e no meio de seus parentes. E foi percorrer as
aldeias dos arredores, ensinando a todos.
É assim mesmo que acontece frequentemente,
por um fenômeno de estreiteza de visão, comum em lugares pequenos. Parece que
não se conformam em ver um de seus conterrâneos se sobressair a eles e se
situar num pedestal mais alto. E querem então diminuí-Io. Quando o certo seria
se alegrarem por esse valor que brota de seu meio. No fundo, é a inveja. Não
vêem de bons olhos o triunfo do outro. Falta o coração aberto, que bate palmas
pelo bem que brilha nos outros. Quereriam ser eles a transportar o archote que
ilumina o caminho. Não toleram que outro o transporte.
Essa atitude está bem longe da virtude da caridade,
cujas qualidades São Paulo exalta na primeira carta aos coríntios. Lá ele diz
que a caridade "não se alegra com a injustiça, mas se regozija com a
verdade" (1 Cor 13, 6). Há uma verdadeira beleza musical nessa afirmação:
"regozija-se com a verdade". Assim deve ser o coração do cristão.
Bater palmas ao bem e à verdade, onde quer que se encontrem. Não ser mesquinho.
Não ficar olhando apenas para o seu pequeno mundo, o mundo de seu egoísmo, que
se fecha para os outros.
Isso nos ajudará até a ser
otimistas. A descobrir quanta coisa boa existe na face da terra, apesar de todo
o negativo que o noticiário cotidiano derrama sobre nós, segundo a triste norma
de que o bem não faz notícia. Perto de mim, ali um pouco mais adiantei e mais
além, e por toda parte, há muita gente fazendo o bem. É preciso ver esse bem. E
preciso alegrar-se com ele. Segundo a norma daquele mimoso poema que manda
contar o jardim pelas flores e não pelas folhas caídas, e manda contar a noite
pelas estrelas e não pelas sombras da escuridão.
Foi um pouco essa visão de
otimismo que impregnou todos os textos do Concílio Vaticano II. E - sou tentado
a dizer - de modo especial o documento sobre "a Igreja no mundo de
hoje", que se abre com duas sonoras palavras de otimismo: "Gaudium et
Spes", isto é, alegria e esperança. É na alegria e na esperança que a
Igreja quer caminhar no mundo. Não na tristeza e na ameaça. Ela quer vibrar de
alegria por todo o bem que se faz por toda parte: dentro da própria Igreja ou
fora de seus muros. E quer alimentar a esperança de corrigir o mal, onde quer
que ele aconteça, quer em nossa casa, quer fora dela. Houve até quem achasse
que o otimismo dos Padres Conciliares foi um pouco excessivo. E que não
assimilaram o espírito do Concílio, que é feito de alegria, de confiança, de
abertura, de diálogo, de vontade de cooperar com o bem, onde quer que ele seja
promovido. A falta dessa visão é que impede neste ou naquele ambiente que o
Concílio dê seus frutos.
O Concílio não foi um ponto
de chegada. Em muitos sentidos o foi, sem dúvida. Mas ele foi principalmente um
ponto de partida. Para a caminhada de uma Igreja viva, alegre, missionária,
confiante. Temos que continuar a caminhar por esse caminho. Continuando a ler
os monumentais textos do Concílio e aprendendo a viver cada vez melhor o
espírito que ele ensinou à Igreja.
Pe. Rosevaldo Bahls
Cascavel, 06 de 07 de 2012.

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